Escorregões nas pedras perto de uma cachoeira acontecem, na maior parte das vezes, pela soma de três fatores: uma superfície com película de limo ou água, um calçado sem aderência e um passo dado com pressa, com as mãos ocupadas ou com o olhar em outro lugar. O visitante não controla a pedra, mas controla os outros dois. Pisar só onde a pedra está seca e áspera, dar passos curtos com os joelhos levemente flexionados, manter as mãos livres e descer sentado quando a inclinação aumentar resolve a maioria das situações no Salto do Itiquira e em qualquer outra cachoeira.
Como o problema aparece
Os sinais de que o grupo está em terreno de escorregão costumam vir antes da queda:
- o pé desliza alguns centímetros ao transferir o peso, mesmo sem a pessoa cair;
- alguém começa a andar com os braços abertos, procurando equilíbrio;
- as pessoas passam a se apoiar umas nas outras, e não em pontos firmes;
- crianças correm sobre pedras onde os adultos estão andando devagar;
- quem fotografa recua sem olhar para trás.
Qualquer um desses sinais pede uma pausa para reavaliar o caminho, e não um passo mais rápido para sair logo dali.
As causas mais comuns
A película na pedra úmida
Pedras sempre úmidas acumulam limo, uma camada de algas e microrganismos que pode ser quase transparente. Sobre ela, a sola perde atrito como sobre sabão.
A pedra seca com areia ou poeira
O contrário também engana. Uma pedra lisa e seca, coberta por areia fina ou poeira, faz o pé rolar sobre os grãos. Isso é comum na estação seca e em trechos de trilha com terra solta.
Pedra solta ou inclinada
Uma pedra pode parecer firme e balançar quando recebe o peso, ou estar inclinada para o lado da água. Nesse caso o problema não é o atrito, e sim o apoio que se move.
Peso mal distribuído e mãos ocupadas
Mochila pesada que balança, celular ou garrafa na mão e cansaço no fim do passeio completam o quadro. Repare que nenhuma dessas causas tem a ver com a pessoa ser desatenta: elas aparecem em qualquer grupo que não para para olhar.
O que muda entre a seca e a época de chuvas
O tipo de escorregão muda com a estação. No período chuvoso, com o rio mais cheio, a névoa da queda alcança uma área maior, mais pedras ficam molhadas e a película de limo se espalha. Pancadas de chuva deixam trechos de trilha com barro, que gruda na sola e tira a aderência até nas pedras secas. Na estação seca, a névoa diminui, mas a poeira e a areia fina aparecem sobre as pedras lisas, e o capim seco esconde pedras soltas na beira do caminho.
Na prática, isso significa que nenhum trecho deve ser julgado pela visita anterior. A pedra que estava seca e firme em agosto pode estar lisa em dezembro, e o caminho tranquilo de março pode ter cascalho solto em setembro. Antes de cada passeio, confira nos canais oficiais do parque se há trechos interditados ou com aviso de cuidado.
Como pisar com segurança
Leia a pedra antes de pisar
Antes de cada trecho de pedras, pare e observe por alguns segundos. Pedras escuras, brilhantes, esverdeadas ou com aspecto liso são suspeitas. Pedras claras, foscas e com textura áspera tendem a oferecer mais atrito. Escolha o caminho pelas pedras secas e ásperas, mesmo que ele seja mais longo do que o trajeto direto.
Teste antes de transferir o peso
Coloque o pé na pedra, pressione de leve e só então passe o peso do corpo para ele, mantendo o outro pé firme no apoio anterior. Se a sola deslizar ou a pedra se mover, volte e procure outro apoio. Esse teste leva um segundo e evita a maior parte dos escorregões.
Passos curtos e corpo baixo
Passos longos deixam o centro de gravidade fora da base de apoio. Em terreno escorregadio, encurte o passo, flexione levemente os joelhos e mantenha o peso sobre os pés, sem inclinar o tronco para trás. Pise com a sola inteira, e não só com a ponta ou o calcanhar.
Três pontos de apoio
Em trechos inclinados ou irregulares, mantenha três pontos de contato com apoios firmes: dois pés e uma mão, ou duas mãos e um pé. Só mova um ponto de cada vez. Para isso, as mãos precisam estar livres: celular no bolso ou na pochete, garrafa na mochila.
Desça sentado quando for preciso
Quando a descida for íngreme e lisa, sentar e descer apoiando as mãos e os pés é mais seguro do que tentar manter o equilíbrio em pé. Parece pouco elegante, mas é o que faz quem conhece terreno de cachoeira.
Degraus naturais e escadas molhadas
Em degraus de pedra ou de madeira molhados pela névoa, apoie o pé inteiro no degrau, e não só a ponta, e use o corrimão quando houver, com a mão já posicionada antes de mover o pé. Na descida, olhe dois ou três degraus à frente para antecipar onde a altura muda. Se o degrau for alto, desça de lado, com o pé de baixo firme antes de soltar o de cima.
Subida e descida pedem técnicas diferentes
Na subida, o risco maior é o pé de trás escorregar ao empurrar o corpo; incline levemente o tronco para a frente e use as mãos nas pedras quando a inclinação aumentar. Na descida, o risco é o pé da frente deslizar com o peso do corpo indo atrás; mantenha os joelhos flexionados, o peso sobre os pés e o olhar no próximo apoio, e não no fim do trecho. A maioria dos escorregões graves acontece na descida, quando o corpo ganha velocidade sem perceber.
Não pule de pedra em pedra
O pulo junta impacto, pouca precisão no pouso e nenhuma chance de testar o apoio. Se a distância entre duas pedras exige um pulo, procure outro caminho ou volte.
Um exemplo hipotético de travessia
Suponha um grupo de três adultos e uma criança de oito anos que precisa cruzar um trecho de pedras molhadas pela névoa até um ponto de observação permitido. Um adulto vai à frente e testa cada apoio. A criança vai no meio, de mãos livres, pisando onde o primeiro adulto pisou. O segundo adulto vai logo atrás dela, e o terceiro fecha a fila levando a mochila mais pesada. Quando o trecho fica mais inclinado, todos descem sentados. A travessia leva o dobro do tempo de um trajeto apressado, e ninguém escorrega.
Se alguém escorregar
Se alguém cair, a primeira atitude é não levantar a pessoa às pressas. Peça que ela fique parada por alguns instantes e diga onde dói. Se houver batida na cabeça, dor forte, deformidade em braço ou perna, tontura ou dificuldade de se mexer, não tente movê-la além do necessário para tirá-la de perigo imediato, como a beira da água, e acione a equipe do parque ou o serviço de emergência pelo 192 ou pelo 193. Em quedas leves, ajude a pessoa a se levantar devagar e avalie se ela consegue fazer a volta com segurança antes de seguir o passeio.
Como prevenir nos próximos passeios
A prevenção começa antes da trilha. Combine com o grupo três regras que valem para todos os trechos de pedra: mãos livres, ninguém corre nem pula, e quem vai à frente avisa onde a pedra está lisa. Treine o teste de apoio e o passo curto nos primeiros trechos fáceis, para que virem hábito quando o terreno ficar difícil. Respeite a sinalização e as áreas fechadas: trechos interditados podem ser justamente os de pedra mais lisa ou instável. Quem visita com crianças ou idosos encontra cuidados adicionais nas dicas práticas de segurança para visitar o Salto do Itiquira com crianças ou idosos, e o texto com dicas para aproveitar a trilha do Salto do Itiquira com segurança ajuda a se preparar para o caminho. Por fim, reserve energia para a volta: boa parte dos escorregões acontece no fim do dia, quando o corpo está cansado e a vontade de ir embora faz apressar o passo.