A trilha do Salto do Itiquira, em Formosa (GO), pede preparo mesmo de quem não pretende ir longe: o caminho até perto da queda costuma incluir descida e, na volta, subida, trechos de pedra que ficam molhados com a névoa e calor do Cerrado na maior parte do ano. Fazer o caminho com segurança depende de nove passos simples, que vão da conferência das condições na véspera à forma de subir de volta sem esgotar o grupo. As características atuais do percurso, como escadas, interdições e trechos em obra, devem ser confirmadas com a administração do parque ou com a Prefeitura de Formosa.
Passo 1: confirme as condições da trilha na véspera
Trilhas de parque mudam: podem ter trechos interditados por manutenção, degraus refeitos ou acesso fechado depois de chuva forte. Pergunte à administração:
- se a trilha até a queda está aberta inteira;
- se há escadas, trechos de pedra ou de terra, e se têm corrimão;
- se a chuva recente deixou algum trecho escorregadio ou com lama.
Com essas respostas, o resto do preparo deixa de ser genérico e passa a ser para a trilha do dia.
Exemplo hipotético: um grupo que pergunta na véspera e descobre que um trecho de escada está em reforma consegue avisar quem tem dificuldade com degraus e ajustar o plano antes de sair. Sem a pergunta, o grupo descobriria isso na metade da descida.
Passo 2: avalie o esforço que o grupo aguenta
A parte difícil de uma trilha de cachoeira costuma ser a volta, não a ida: desce-se com o corpo descansado e sobe-se depois de sol, banho e caminhada. Avalie o grupo pela pessoa com menos preparo, e não pela média.
Um teste caseiro hipotético ajuda a ter referência: se a pessoa sobe três ou quatro andares de escada em ritmo normal, sem precisar parar, tende a fazer uma subida de trilha com pausas. Se ela precisa parar a cada andar, planeje pausas frequentes e considere que ela vá até um mirante, sem descer até a base. Quem tem problema cardíaco, respiratório ou de articulação deve conversar com o próprio médico antes de esforço em subida.
Com crianças, o raciocínio é parecido: elas costumam descer animadas e cansar na subida. Combine antes quem vai carregar a mochila delas e reserve uma pausa com lanche para o meio da volta. Criança pequena que precisa ir no colo muda todo o cálculo, porque o adulto passa a subir com peso extra e com menos equilíbrio.
Passo 3: escolha o calçado pela aderência e pela fixação
O calçado é o item que mais influencia a segurança na trilha. Compare as opções por três critérios:
| Calçado | Aderência em pedra | Fixação no pé | Secagem |
|---|---|---|---|
| Tênis de trilha com cravos | Boa | Boa | Lenta, se for fechado |
| Sandália de trilha com tiras | Boa, se a sola for de borracha macia | Boa | Rápida |
| Tênis de corrida comum | Média; escorrega em pedra lisa | Boa | Média |
| Chinelo | Baixa | Baixa; sai do pé | Rápida |
O erro comum é estrear calçado novo na trilha. Use-o antes em caminhadas curtas, para descobrir pontos de atrito e evitar bolhas.
Passo 4: monte uma mochila leve
Peso nas costas desequilibra na descida e cansa na subida. Leve só o que vai usar na trilha:
- água para ida e volta, sem contar com ponto de venda no caminho;
- lanche leve, protetor solar e chapéu;
- toalha de secagem rápida e saco estanque para celular e documentos;
- saco para trazer o lixo de volta.
Prefira mochila com duas alças, ajustada ao corpo, para manter as mãos livres. Bolsa de um ombro só balança e tira o equilíbrio em degraus.
O erro comum é levar água só numa garrafa coletiva, na mochila de uma pessoa. Se o grupo se separa, quem ficou sem a mochila fica sem água. Cada um com a própria garrafa resolve o problema.
Passo 5: combine o ritmo, as pausas e a hora de voltar
Antes de começar, o grupo combina três coisas:
- Ritmo: o de quem anda mais devagar, que vai na frente ou logo atrás de quem conduz.
- Pausas: em pontos largos e na sombra, de preferência antes de alguém pedir.
- Hora de voltar: um horário fixo para iniciar a subida, que respeite o calor e, na época das chuvas, o risco de tempestade à tarde.
A hora de voltar deve valer mesmo que o grupo não tenha feito tudo o que queria. É ela que evita a subida no pior calor do dia. As diferenças de horário e de condição da trilha entre seca e chuva estão em como o clima afeta sua visita ao Salto do Itiquira em cada estação.
Passo 6: desça com passos curtos e o olhar no chão
A descida é onde acontece a maior parte dos escorregões, porque o corpo ganha velocidade sem perceber. A técnica é simples:
- passos curtos, com o pé inteiro no chão, e não só a ponta;
- joelhos levemente dobrados, para absorver o impacto;
- olhar dois ou três passos à frente, escolhendo onde pisar;
- mão no corrimão onde houver, sem soltar para fotografar.
Se precisar parar para foto, pare de fato: pés firmes num ponto plano e fora do caminho de quem vem atrás. Em dia cheio, ajuda conhecer as dicas para evitar aglomerações na trilha do Salto do Itiquira.
Passo 7: pise nas pedras certas perto da água
Perto da queda e do poço, a névoa mantém as pedras molhadas o tempo todo. Nem toda pedra molhada escorrega da mesma forma, e aprender a ler a superfície reduz muito o risco:
| Aparência da pedra | Risco | Atitude |
|---|---|---|
| Clara, seca e áspera | Baixo | Pode pisar com o pé inteiro |
| Molhada, mas áspera | Médio | Pise devagar, com o peso centrado |
| Escura, lisa ou com limo verde | Alto | Contorne; se não houver como, apoie as mãos |
| Inclinada e molhada | Alto | Evite; procure outro caminho |
Ao passar por um trecho difícil, use três pontos de apoio: dois pés e uma mão, ou duas mãos e um pé. Nunca salte de uma pedra para outra.
Passo 8: cuide do caminho enquanto anda
Uma trilha sustentável é aquela que continua igual para quem vem depois. No percurso, isso se traduz em atitudes concretas:
- não corte caminho por fora da trilha, o que abre erosão e mata a vegetação rasteira;
- não arranque plantas nem leve pedras como lembrança;
- não alimente animais, nem com restos de fruta;
- não deixe nada para trás, incluindo cascas e bitucas.
Casca de fruta parece inofensiva por ser orgânica, mas demora a se decompor fora do ambiente de origem, atrai animais para a trilha e acostuma a fauna à comida dos visitantes. Por isso, ela volta na mochila junto com o resto do lixo.
Andar devagar e em silêncio também ajuda a ver mais. O que observar no caminho, das aves às plantas da rocha úmida, está em fauna e flora ao redor do Salto do Itiquira.
Passo 9: suba de volta sem pressa
A subida final é o trecho mais cansativo e o que pede mais disciplina. Comece no horário combinado, beba água antes de sair da área da queda e mantenha o ritmo do mais lento.
- Faça pausas curtas e frequentes, em vez de poucas e longas, para o corpo não esfriar e endurecer.
- Se o calor estiver forte, molhe o rosto e o pescoço nas pausas.
- Pare a qualquer sinal de tontura, dor de cabeça forte, náusea ou falta de ar fora do normal, procure sombra e peça ajuda à equipe do parque se não melhorar.
- Ao chegar ao topo, sente-se, beba água e coma algo antes de dirigir.
Com a volta feita nesse ritmo, a trilha termina como começou: com o grupo inteiro, sem pressa e com energia para a viagem de volta.