Boa parte do impacto que visitantes deixam em áreas naturais como o Salto do Itiquira não vem de descaso, e sim de crenças que parecem razoáveis: casca de fruta vira adubo, enterrar resolve, sabonete biodegradável não faz mal na água, uma pedrinha de lembrança não faz falta. Cada uma dessas ideias tem uma explicação para estar errada, e entender o porquê torna mais fácil seguir as regras do parque sem sentir que são exagero. Abaixo estão sete desses mitos, com o que acontece de fato e a atitude correta em cada caso. Alimentar animais, que é o mito mais comum de todos, tem um texto próprio sobre animais silvestres e fica de fora desta lista.
Mito 1: "Casca de fruta é natural e vira adubo, então pode ficar"
Casca de banana, de laranja ou caroço de manga parecem inofensivos porque são orgânicos. O problema é o tempo e o lugar. Em clima seco, como o do Cerrado em boa parte do ano, a decomposição é lenta, e a casca fica visível por semanas, às vezes mais. Enquanto isso, ela atrai insetos e animais para perto das áreas de circulação e acostuma esses animais a procurar comida onde há gente.
Há ainda um efeito menos óbvio: sementes de frutas que não são da região podem germinar e introduzir plantas exóticas no ambiente. Uma única semente parece pouco; somada à de milhares de visitantes, deixa de ser.
Restos de comida preparada, como pão, arroz ou carne, seguem a mesma lógica e atraem ainda mais animais por causa do cheiro, além de estragarem rápido no calor.
O que fazer: leve um saco fechado só para os restos orgânicos do grupo e trate casca e caroço como lixo comum, que volta com você.
Mito 2: "Se não tiver lixeira, enterrar resolve"
Enterrar o lixo tira o problema da vista, não do lugar. Animais com bom olfato cavam e espalham o que foi enterrado, e a chuva remove a terra rasa e expõe tudo de novo. Em áreas de solo raso ou pedregoso, comuns perto de cachoeiras, nem dá para cavar o suficiente.
Embalagens plásticas e metalizadas, como as de biscoito e de barra de cereal, duram muito tempo no ambiente, enterradas ou não. Elas se fragmentam em pedaços menores, que são ainda mais difíceis de recolher.
O que fazer: use as lixeiras indicadas pelo parque ou traga o lixo de volta. Embalagens já abertas podem ser dobradas e guardadas dentro de uma maior para ocupar menos espaço na mochila.
Mito 3: "Papel higiênico some com a chuva"
O papel higiênico parece frágil, mas não desaparece na primeira chuva. Quando seco, pode ficar dias ou semanas no mesmo lugar, e o vento o espalha. Lenço umedecido é ainda pior, porque muitos contêm fibras sintéticas e não se desfazem como papel.
Além do aspecto, há a questão sanitária: o que fica perto de trilhas e de cursos d'água pode ser levado para a água pela chuva.
Em áreas muito visitadas, o problema se concentra nos mesmos pontos: atrás de pedras grandes e de moitas perto da trilha, que viram lugares que ninguém quer encontrar.
O que fazer: use os banheiros do parque antes de começar a trilha e antes de ir para a área de banho. Se precisar usar papel fora deles, guarde o usado num saco fechado e jogue fora na lixeira ou em casa.
Mito 4: "Sabonete e xampu biodegradáveis podem ser usados na cachoeira"
Biodegradável quer dizer que o produto pode ser decomposto por microrganismos, o que acontece principalmente no solo, ao longo do tempo. Na água corrente, antes de se degradar, ele está ali, em contato com peixes, larvas de insetos e plantas aquáticas. Sabões e detergentes alteram a superfície da água e podem prejudicar esses organismos, mesmo em pequena quantidade.
Somado ao número de visitantes, o efeito de cada um que lava o cabelo no poço se multiplica no mesmo trecho de rio.
O que fazer: nada de sabonete, xampu ou condicionador na água, biodegradável ou não. Se o parque tiver chuveiro, use-o; se não, deixe o banho com produto para casa. O mesmo raciocínio vale para lavar louça ou recipientes no rio.
Mito 5: "Uma pedrinha, uma flor ou uma muda de lembrança não fazem falta"
A conta muda quando se pensa no total. Se uma parte pequena dos visitantes leva uma pedra bonita, uma flor ou uma semente, ao fim de um ano são muitas pedras, flores e sementes a menos no mesmo lugar. Flores e sementes são o que permite às plantas se reproduzirem, e pedras soltas servem de abrigo para pequenos animais.
Em áreas protegidas, retirar elementos naturais costuma ser proibido. As regras exatas variam de lugar para lugar, e a administração do parque pode informar o que vale ali.
Há também o efeito sobre quem vem depois. A pedra bonita do mirante ou a flor na beira da trilha só estão ali para o próximo visitante porque os anteriores não as levaram.
O que fazer: leve a lembrança em foto. Se quiser registrar uma planta ou uma pedra com detalhe, fotografe de perto e deixe tudo onde estava.
Mito 6: "Empilhar pedras é uma brincadeira inofensiva"
Pilhas de pedras viraram moda em lugares turísticos, e parecem um gesto inocente. Para montá-las, porém, é preciso tirar pedras do lugar, e cada pedra levantada desfaz o abrigo de insetos, pequenos lagartos e outros animais que vivem embaixo delas. Em leitos de rio, mover pedras também perturba a vida que existe entre elas.
Em trilhas, há outro problema: pilhas de pedras são usadas em vários lugares do mundo como marcação de caminho. Pilhas aleatórias podem confundir quem tenta seguir a trilha e levar alguém para fora do caminho seguro. E uma pilha incentiva a próxima, porque quem vê tende a imitar.
O que fazer: não monte pilhas, nem as derrube se encontrar uma num lugar de risco. Avise a equipe do parque, que sabe se aquilo é uma marcação.
Mito 7: "Cortar caminho por fora da trilha uma vez não estraga nada"
O atalho de um visitante é a trilha nova do próximo. Quando várias pessoas cortam pelo mesmo ponto, a vegetação rasteira é pisoteada, o solo fica exposto e começa a ser levado pela chuva. Em pouco tempo, surge um sulco de erosão paralelo à trilha oficial, e ela própria pode ser danificada.
Além do impacto ambiental, o atalho costuma passar por terreno que ninguém preparou para ser pisado: solo solto, pedras instáveis, vegetação que esconde buracos e animais.
O que fazer: fique nas trilhas abertas, mesmo quando o caminho parece fazer uma volta desnecessária. A curva costuma existir para suavizar a inclinação ou desviar de um trecho instável. As dicas para aproveitar a trilha do Salto do Itiquira de forma segura e sustentável tratam de outros cuidados no caminho, e entre os erros comuns na primeira visita ao Salto do Itiquira está o de deixar rastro, com o lixo e as pedras pintadas.